segunda-feira, junho 30, 2014

Branca de Neve

Cheguei na casa e tudo era micro. Até os espelhos estavam pendurados um pouco mais pra baixo que o normal. Procurei pelo meu quarto indicado pela carta e logo encontrei: era o que estava com a porta aberta. Não tenho como definir a decoração do meu quarto, por isso vou chamá-la de simplicidade funcional.

Abri minhas malas e fui guardando as minhas roupas no armário. Bateu um arrependimento de ter tirado um monte de coisa delas. Trouxe umas bermudas do surf e umas camisas nada a ver - nada que combine - "vou arrasar no Canadá!", pensei ironicamente.

Deitei na minha cama de casal. O colchão parecia uma esponja de lavar louça. Não consegui me mover. Não pela emoção do momento, mas porque o colchão era praticamente uma areia movediça - já passei por essa situação em outras experiências antropológicas, então foi tranquilo lidar. E adormeci.

Quando estava naquele transe do dorme ou não dorme, ouço uma voz de uma gralha gritando: "Helloooo, Mr Brunooooooo!!!!". Era a dona da homestay que eu passaria o próximo mês.

Como imaginado, ela era um pigmeuzinho. Uma mulher alegre, com um sorriso gigante, cabelo Elba Ramalho e batom vermelho bombeiro. Filipina. Falou um monte de groselha que eu não entendi nada e fez um sanduíche super gostoso pra mim. Fofa. Me explicou como ligava a máquina de lavar, a secadora e o chuveiro. Fingi que entendi, ela fingiu que estava tudo certo e foi embora pra outra casa onde ela cuida de umas crianças X. Não tinha entendido também e não quis perguntar porque estava com medo de invadir demais a privacidade da pigmeu. Fofa.

Assim que ela saiu, decidi tomar um banho pra tirar toda a energia ruim que carreguei comigo do Brasil. Quem disse que eu conseguia ligar o chuveiro? Apertei todos os botões, girei todas as torneiras, bati na parede e nada. A água só descia na banheira. Desencanei do chuveiro, tampei o ralo da banheira com um pedaço de pano que eu encontrei, joguei um sabonete líquido na água pra fazer umas espumas e fiquei lá curtindo o meu primeiro banho em terras canadenses, até a minha pele ficar parecendo um maracujá.
Fui tentar lavar meu cabelo, mas a água estava com o sabonete líquido e ficou pior do que estava. Quando levantei, quase desmaiei porque a água estava muito quente. Lembrei que naquele momento eu deveria ser forte porque se eu morresse ali ninguém ia me salvar.

Me troquei e decidi me aventurar pela vizinhança. Fui no supermercado, cheirando a higicalcinha e com o cabelo do Edward Mão de Tesoura, só pra ver como é que era o comércio local e aproveitei para comprar produtos de higiene. Demorei umas duas horas porque queria desodorante de spray e só tinha roll on e a mulher começou a me explicar sobre o efeito estufa e aquilo tudo que a gente aprende na 6a série. Todo mundo do bairro é asiático, me senti discriminado. Mas eles são tão simpáticos, tão agradecidos e tão asiáticos, que queria levar todos para a casa de boneca da pigmeu e por pra dormir. Achei melhor não.
Mal podia esperar para conhecer o resto da cidade.

Um comentário:

Anônimo disse...

E depois? Primeiro dia, tantas expectativas tantas coisas...