segunda-feira, julho 22, 2013

Próxima estação: Verão

O banco da estação já tinha o formato do seu corpo. Todos os dias, depois do trabalho, era lá que ele sentava e esperava a vida passar. À 1h05, exatamente, ele pegava o último trem de volta para a sua casa.

Assim que chegava em casa, tomava um banho quente até que seus dedos começassem a enrugar. Escrevia nomes no vidro do box, lia o rótulo do shampoo e segurava o esfregão como um Oscar, agradecendo sempre à Academia pelo ótimo reconhecimento ao papel de louco que se prezava todos os dias.

Já na cama, cobria seus pés para que a madrugada não congelasse ainda mais seu coração partido. Ele era metade tristeza, metade saudade. Religiosamente, rezava todas as noites para que alguém especial descesse de um daqueles vagões de trem, os quais assistia, hipnotizado, suas chegadas e partidas.

Foi então que, no dia seguinte, um imprevisto no trabalho fez com que ele se atrasasse a chegar na estação. Ele correu o máximo que pode para não perder o trem das 18h12. Mas, assim que chegou, percebeu que uma outra pessoa estava sentada no seu banco. Com tantos outros bancos para se sentar, numa estação grande como aquela, por que aquela pessoa foi logo sentar ali? Quem é ela? O que ela pensa?

Passada a análise sem critério em cima de alguém que não deve valer nada, talvez esteja na hora de trocar de banco para ter uma visão diferente das coisas. Talvez ainda esteja na hora dele entrar num desses trens e ir para uma outra estação. Afinal de contas, o inverno não é a estação exata para se ver a vida passar. Ainda mais para aqueles que esperam por um passageiro que não viaja mais de trem.



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