domingo, junho 09, 2013

Deu R$10,90.

É sábado à noite. Enquanto todos estavam por aí procurando uma festa para ir, eu estava procurando um livro pra ler. Tem dias que sou assim. Quando percebo que meu humor atingiu o ápice do inconstante, coloco qualquer roupa e fujo para uma livraria. Às vezes acho que só as palavras me entendem. 

Peguei o livro de uma autora/atriz que gosto dos pontos de vista e fui pro caixa, onde obviamente um pai exemplo com sua filha abercrombie furou a fila. Tive que desalinhar todos os meus chakras no processo de avisá-los que existia uma sequência de atendimento e que as pessoas que estavam organizadas em fila indiana não estavam ali à toa. 

Enquanto saía da livraria pensando na bomba de chocolate que deixei na geladeira de casa, uma garota asiática me para perguntando se pode tirar uma foto minha. Oi? Look street style do dia na livraria. Faço o símbolo de paz e amor e recebo o flash como um tapa na cara de um pouco de realidade. "Meu Deus, parem de interferir nos meus pensamentos!" pensava no momento em que um menino carregando um caixote para engraxar sapatos se ajoelhou na minha frente me implorando um café com leite. 
- Quer um pão de queijo também? Moça, me vê um café com leite e um pão de queijo, por favor.
Aí sinto um cutucão no meu ombro. Era o segurança dizendo que o menino engraxate não poderia ficar ali. 
- Olha meu senhor, o meu amigo vai ficar aqui comigo até ele terminar de comer. Você quer mais alguma coisa?

Corri para o metrô antes de ser atingido por uma chuva de aerolitos. Chegando na catraca, uma senhora de uns 50 anos estava rodando a baiana com os funcionários do metrô, não deixando ninguém passar na frente dela. 
- Sra, qual o problema? - perguntei.
- Meu bilhete único não está funcionando, esse país é um lixo, essa cidade é um caos, as pessoas não se respeitam e... - e nesse instante só via a boca dela se mexer sem mais ouvir o que estava dizendo.
- Pronto! Vou passar aqui o meu bilhete e a Sra pode passar. Não fique nervosa senão vai ter um piripaque.
E aumentei a Enya no meu IPod.

Entrei no vagão. Uma pessoa entrou correndo na minha frente e sentou na única cadeira livre. Foda-se, pensei. Uma mãe com 4 crianças gritava no telefone dizendo que os filhos eram muito levados e que a mais nova tinha arrancado o brinco da orelha que agora estava sangrando. A menina chorava porque tinha perdido o brinco. O irmão ajudava ela a procurar. A mãe gritava: "AGORA JÁ ERA. AGORA PERDEU, AGORA NUNCA MAIS!" E a Enya não fazia mais nem cosquinha no meu ouvido. Foi então que eu vi ao longe algo brilhante. Corri antes que alguém pisasse. Era o brinco da menina! E, enquanto eu entregava o brinco da menina, a mãe no telefone gritava: "AGORA TÁ CHORANDO PELO BRINCO PERDIDO, É, O DE FLORZINHA!". Entreguei o brinco pra menina e me virei em direção ao local onde antes eu estava parado tentando lembrar do que eu estava pensando. Senti um puxão na minha blusa. Virei pra ver o que era dessa vez. Era a menina pedindo para eu abaixar. Já pedindo redenção abaixei e ela me lascou um beijo todo melado de bala de cereja. "Obrigado, tio!" e desceu na próxima estação.

Cheguei no terminal de ônibus no momento em que o meu ônibus tinha acabado de partir. Peguei um taxi.
- Dia difícil? - perguntou o taxista.
- Se eu te contar você acredita?
- Já ouvi cada história!
- Bom, é sábado à noite. Enquanto todos estão por aí procurando uma festa para ir, eu só estava procurando um livro pra ler...



Um comentário:

DaDiNhOPsM disse...

Adoro seus textos !