sexta-feira, fevereiro 24, 2012

Nós não vamos pagar nada!

Ser classe C não é fácil. Pior ainda é quando você está inserido em um meio social em que as pessoas acreditam que você tem o mesmo nível econômico (aquela coisa de estudar na FAAP e ir de ônibus). Não me faço de nada pra ninguém, prefiro que as expectativas ao meu respeito sejam baixas para que eu consiga superar todas elas. Teoria podre pra quem se considera um bocado inteligente.
Depois que fui morar sozinho, entendi o papo das pessoas sobre o preço do papel higiênico e sobre a louca procura pelo lugar onde vende o alface mais fresquinho. Proletariado sem prole.
Além disso, descobri que tudo o que a gente come da geladeira, acaba; sem contar que quando a gente não divide, as coisas estragam. Finjo naturalidade como se já soubesse de tudo isso de vidas passadas.
Há alguns dias, quase morrendo desidratado, resolvi ir até o supermercado para comprar água potável. Pensei em tomar do chuveiro - pela preguiça - mas eu não sei o que fiz com o chuveiro que a água sai na temperatura de uma sopa. Coloquei um chinelo amarelo, uma bermuda azul e uma camiseta rasgada. Era óbvio que eu iria encontrar alguém interessante que eu já conhecesse. Me fiz de louco e, com o ipod no ouvido, cantava uma música americana no meu próprio dialeto. Peguei um desodorante e fiz de microfone pra galera da gôndola de higiene pessoal (essa parte é mentira! kkk).
Percorri todo o supermercado em busca de algo que suprisse a minha sede de viver. No caso, água. Achei um absurdo uma garrafa de água custar quase R$10,00. Saí por onde entrei e fui até o supermercado da frente que tem o slogan destinado às pessoas da classe C. No caso, eu.
Eu sou tão classe C que, quando saio de algum lugar sem comprar nada, sempre acho que alguém da loja/supermercado pensa que eu furtei alguma coisa. Talvez seja por isso que costumo comprar alguma coisinha em qualquer lugar que eu entre: tenho um monte de roupas que nem a etiqueta eu tirei.
Chegando no supermercado classe C, peguei as duas garrafas de água e entre na única fila que existia. Fila esta que estava lotava. Na minha frente, uma senhora e sua filha revezavam de 10 em 10 segundos para voltar às gôndolas atrás de alguma coisa que tinham esquecido. No meu IPod, o sucesso dos Titãs: Nós Não Vamo Pagá Nada! Eu podia estar irritado com aquela situação de entra e sai da fila, inclusive pelo fato de a todo instante elas esbarrarem em mim, mas preferi fechar os olhos e alinhar meus chakras.
Depois de uns 40 minutos, uma pessoa incrível teve a ideia genial de abrir um dos outros 7 caixas que estavam fechados, chamando assim as pessoas da minha fila para se dividirem entre a fila nova. Como eu estava apenas com duas garrafas de água, consegui chegar primeiro que as outras pessoas. Não que eu tivesse corrido ou desesperado pra sair de lá (o que eu estava), mas porque era mais fácil pra mim, do que para as pessoas que estava com carrinhos de compras.
Foi então que as tais mulher e a filha começaram a gritar dizendo que estavam na minha frente na outra fila. Odeio gente que grita. Perguntei para as mulheres se era possível eu passar na frente pois estava apenas com duas garrafas de água (enquanto o carrinho delas estava abastecido para a espera do fim do mundo). Elas não responderam e gritavam mais ainda que iriam chamar o gerente. Eu odeio gente que grita - ainda mais quando estou de ressaca. Fui até a outra fila e pedi para que, por favor, as mulheres entrassem na minha frente, que não havia porque discutir. Elas gritavam e gritavam, mesmo e tendo pedido para que elas entrassem na minha frente. E eu fui pagando a minha conta.
Peguei a nota fiscal, chamei as duas e, dizendo que elas estavam precisando, arremessei um pacote de camisinha que fica no caixa.
No meu IPod tocava Cara Caramba Cara Caraô.
Eu adoro ser da classe C!


3 comentários:

Mari Miranda disse...

VOCÊ É INCRÍVEL!!!

Anônimo disse...

Adorei! Escreva mais, mais e sempre mais!

Mara Ribeiro disse...

kkkk é a vida da classe C.
Bjo no coração.