sábado, setembro 10, 2011

O inverno de setembro

É sábado à noite. Sem parar, o telefone toca com convites de pessoas desinteressantes para encontros em lugares onde ele não quer ir. Ele se cansa só de pensar em debater assuntos que viram discussões assim que se dispõe a dar a sua opinião não-hipócrita sobre as coisas. Nessa noite é preferível a fiel companhia da música. É ela que está sempre lá quando não há mais ninguém.
Pela janela, o vento gelado o faz sentir-se vivo e o faz perceber que nem tudo está sob o seu controle. Apesar de não acreditar muito em horóscospo, para um leonino acaba sendo evidente a dificuldade de se convencer que tudo tem vida própria.
Ele tenta, de todas as formas, encontrar novas lembranças felizes perdidas na memória infinita de alguém que parece que só tem passado. Foi então que percebeu que todas as recordações alegres o fazem triste. Todos os sentimentos contraditórios são complementares. O sorriso só acontece quando se conhece a dor.
O álcool da noite passada ainda corre em seu sangue. Sua cabeça gira em harmonia com a rotatividade do planeta e mistura pensamentos que antes estavam divididos por pessoas e locais. E, nesse tétris mental, um espaço vaga assim como o seu coração já estava há tempos.
Ansiosamente, espera pela primavera que esse ano chegará mais tarde. Afinal, são nos momentos de transição em que tudo acontece.
É domingo de madrugada e a música o abraça para que ele possa dormir mais quentinho nesse inverno que parece não ter mais fim.

sexta-feira, setembro 09, 2011

terça-feira, setembro 06, 2011

Estação: Liberdade

A verdade é que, depois que a vida me encheu de tapa na cara, tirei a minha camisa de força e comecei a planejar o meu destino. E, dentre todos os karmas que já estou acostumado (desde as minhas vidas passadas) está a minha dificuldade de locomoção. A falta de um carro atrasa a minha vida pessoal, profissional e amorosa. Por outro lado, acabo sendo uma pessoa muito mais interessante e com um milhão de histórias para contar.

Dias atrás, entrei no metrô já emputecido com um monte de contratempos (que não falarei sobre para não prolongar 5 minutos em 3 dias) quando uma pessoa se levantou e uma cadeira brilhou me chamando pra sentar. Fingindo tranquilidade e, ao mesmo tempo, querendo correr para ninguém roubar a oportunidade de eu poder sentar e ler um livro, conquistei o que tanto almejava. Quem me dera se tudo fosse tão fácil assim, pensei.

Foi quando o vagão começou a lotar e eu fui obrigado a, praticamente, passar o resto da viagem com o braço levantado para que as tachinhas da bolsa de uma piriguete não me cegassem. Nisso, entrou um casal super no papo alto pra geral ouvir e sentou nos bancos reservados para deficientes e idosos, nos mostrando em exemplo da educação ímpar brasileira. Aumentei o som da Enya, que já estava mais me irritando do que alinhando os meus chakras e continuei lendo pela terceira vez a mesma frase já que o meu cérebro não estava mais retendo nada do que estava se passando.

Na próxima estação, entrou uma velhinha quase quadrúpede de tão ansiã, tadinha. Nesse instante, eu olhei para o casal que estava batendo papo e gargalhando como se estivesse sentado numa mesa de bar, mas que estava sentado na cadeira reservada para deficientes e idosos. Nenhuma reação da parte deles.

O meu coração começou a se quebrar em pedaços ao ver a velhinha de pé enquanto havia um casal sentado no lugar que era reservado para aquela doce senhora de nobre coração que ia todos os dias ao bosque comprar lenha. Levantei da minha cadeira que não era reservada para ninguém e dei um berro:

- JÁ QUE O CASAL NÃO LEVANTA DA CADEIRA RESERVADA PARA A SENHORA, POR FAVOR, SENTE-SE AQUI!

E a velha sentou sem falar uma palavra. Tampouco agradeceu. Maldita.

Aí, comecei aquela coisa bem Brasil de comentar com a pessoa do lado que você nunca conversaria nem se estivesse bêbado:

- Puxa, as pessoas são sem educação mesmo nesse país, né? Tão vendo que a velhinha tá quase fazendo um pole dance pelas barras do metrô! O que que custa levantar?

E a mulher me responde:

- O casal que está sentado na cadeira reservada para idosos e deficientes é cego!

Eu, sem reação com o show que eu acabava de dar com um grande público e sem aplausos, dei um abraço de desculpas (?) na mulher que deu a valiosa informação e desci na próxima estação fingindo demência e naturalidade. O detalhe fica que a próxima estação não era o meu destino, mas ficou sendo por tudo isso que eu contei para vocês.

E continuo vivendo assim, mudando o meu destino para refletir sobre o que tenho feito da minha vida.

Próxima estação: Paraíso, desembarque pelo lado direito do trem.