domingo, setembro 30, 2007

Joãozinho era um menino gordinho. Na infância, devorava tudo o que via pela frente. Pra ele, não existia essa coisa de café-da-manhã, almoço, jantar. Não havia essa história de hora pra comer, de sobremesa depois da refeição. Toda hora era hora e a gula era seu pecado predileto.

Todos gostavam dele. Gordinho, mas simpático! Os adultos adoravam alimentá-lo e as crianças riam dizendo que um dia ele iria explodir. Joãzinho só comia coisas salgadas, e a pizza era seu alimento mais precioso. Sempre que passava na frente de alguma pizzaria, se afogava com sua própria água na boca.

Quando completou 7 anos, já na escola, a mãe de Joãozinho fez uma grande festa de aniversário em um buffet infantil. A festa foi um sucesso. Todos os amiguinhos foram parabenizar o garoto gordinho pela data especial.

Chegando em casa, enquanto comia o resto dos salgadinhos que sobraram da festa, Joãzinho abria os muitos presentes que ganhara naquele dia. Dentre todas os grandes embrulhos, uma pequena caixa vermelha de laço da mesma cor foi deixada de lado, pra ser aberta depois. Ela não parecia importante. Para as crianças - ainda imaturas - as maiores caixas guardam os melhores presentes. Cansado de tanto brincar e comer, foi dormir feliz e ficou a sonhar com mais comida.

Durante a madrugada, enquanto ia até a cozinha para tomar o seu copo de água rotineiro, a mãe de Joãozinho tropeçou na tal caixa vermelha do laço vermelho que pairava ali, no meio do corredor. Depois de quase cair no chão, fingiu naturalidade, pegou o presente e o colocou ao lado da cama de João.

Ao acordar, Joãozinho se deparou com o pequeno embrulho ao seu lado. Tamanha era a sua fome matinal que torceu os dedos pra que fosse algo de comer. Desmanchou o laço e rasgou o embrulho: era uma caixa de chocolate! Era o presente dado pelo seu melhor amigo, Pedrinho, menino pobre, filho da empregada da sua vizinha.

Difícil de acreditar, mas Joãzinho nunca sentira o gosto doce do chocolate. A mãe já o achava gordo o suficiente pra variar o cardápio do menino de tal forma. Seus olhos brilharam de encontro ao novo tipo de iguaria. Apareceu aquele frio na barriga, aquele de medo, de insegurança, da incerteza de um gosto nunca sentido antes. Mas comeu o chocolate. Comeu 1, comeu 2, comeu quase todos e só deixou aquele que parecia mais gostoso, pra comer depois. E escondeu a caixa com um só chocolate debaixo da sua própria cama.

Todos os dias, ao chegar da escola, Joãzinho corria pra debaixo da cama e abria a caixa de chocolates. Era só pra olhar se o chocolate ainda estava lá, suculento, esperando para ser devorado. Em seguida fechava a caixa e a escondia novamente debaixo da cama.

Foi assim durante meses, 5 meses e meio exatamente. Até que um dia Joãozinho acordou decidido finalmente a comer o tal doce. O doce que parecia o mais doce. O preservado doce. O único doce naquela pequena doce caixa. O solitário doce. O privado doce. O doce que realmente era o mais doce.

Chegando da escola, antes mesmo de comer qualquer coisa, Joãozinho correu até a caixa. Abriu-a lentamente e desembrulhou o doce devagarinho, escondido. O doce era bonitinho por fora, parecia gostoso. Comeu pedaço por pedaço, saboreando cada novo gosto, cada nova sensação. Foi um dia super especial na vida dele. O dia do novo sentimento, do gosto proibido.

Contudo, passou mal, vomitou a noite inteira, cagou a madrugada toda. A mãe de Joãozinho não sabia mais que buraco limpava. Foi então que ele decidiu que nunca mais iria comer doce.

Em função disso, hoje, 10 anos depois, Joãozinho é magro, sarado, bonito e desfilou na última temporada da SPFW.

***
Nunca pensei que eu pudesse ser um doce estragado de alguém.

Bon apetit!

5 comentários:

Carlos Roberto disse...

Você tá mandando muito bem escrevendo!

Jacques disse...

Voce ta falando do Diego M. ?
Saiba que na giria de voces, doce significa pessoa feia.
Abraços

Rômulo disse...

Lindo texto.

Você escreve tão bem. Abandona o blog não. :(

Paula disse...

Adoro o espaço
Adoro o que você escreve
De certa forma, poderia dizer que gosto de você pelas idéias
Já li teu blog inteiro e te desejo muita sorte na vida e no amor, porque no final, é o que procuramos.
Bjão!

Patrícia disse...

Muito boa a sua comparação! Já me aconteceu isso diversas vezes. Quando meu ex- namorado terminou o namoro, eu simplesmente não sabia o que fazer. Ainda o amava. Mas perecebi que o tempo que me folgou, pude estudar mais, fazer minhas coisas. Hoje me sinto super realizada, conquistei novos objetivos - que talvez nao tivesse conseguido se o namoro não tivesse sido terminado. Beijos!